Fonte:http://www.capitalteresina.com.br
Orçada em US$ 40 bilhões, obra será executada a partir de dezembro deste ano, por grupo chinês
Autor: Sérgio Fontenele
Encarado como estratégica para o Brasil e a Petrobras, que terá condições multiplicadas de exportar o petróleo do pré-sal à China, o Canal da Nicarágua ou Grande Canal Interoceânico da Nicarágua, estranhamente, ainda não foi “descoberto” pela imprensa nacional. Destaque em toda a mídia mundial, pela grandiosidade da obra, orçada em US$ 40 bilhões, o canal ainda não mereceu a atenção devida dos veículos de comunicação brasileiros. Por que será?
Em terras nacionais, a notícia da construção do canal foi repercutida em blogs e, discretamente, sem qualquer destaque, nos sites do jornal O Estado de São Paulo, o Estadão, e da BBC de Londres no Brasil. Em língua portuguesa, há um farto noticiário sobre a grandiosa obra, mas somente em Portugal. Não se sabe se os jornalistas brasileiros demonstraram pouco interesse, em relação ao Canal da Nicarágua, pelo fato de a obra não passar de um projeto.
De acordo com a imprensa internacional, o canal começará a ser construído em dezembro deste ano. O anúncio foi feito pelo Governo da Nicarágua e pela HK Nicaragua Canal Development Investment Co. Limited (HKND Group), responsável pela execução da obra. Trata-se de uma concessionária criada por grupo empresarial chinês para construir o canal, que terá 286 quilômetros de extensão.
Maior do mundo
O projeto prevê a implantação de um oleoduto, uma rodovia, uma ferrovia transcontinental, dois portos de águas profundas, dois aeroportos e duas zonas francas. Três vezes maior do que o Canal do Panamá, é uma das maiores obras de engenharia do mundo. Entre outras características impactantes, o canal atravessa o lago da Nicarágua, maior reserva de água potável do país, o que, aliás, tem sido contestado por ambientalistas.
No dia 13 de junho de 2013, o site Estadão.com.br noticiou que a Assembleia Nacional da Nicarágua aprovara a construção do canal, que irá conectar os oceanos Atlântico e Pacífico. Com isso, o país espera atrair investimentos, e competir com o Panamá no tráfego interoceânico de grandes cargueiros, inclusive os petroleiros do Brasil, em direção à China. A Assembleia Nacional aprovara o projeto por 61 votos a favor, e 28 contra.
O texto estabelece concessão de 50 anos, renováveis por mais 50, a uma empresa com sede em Hong Kong. Para o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, a construção do canal deve ajudar a transformar a realidade socioeconômica da população de um das nações mais pobres do continente. Ainda não se sabe detalhes completos sobre qual será a rota do canal, nem informações claras sobre o modelo de financiamento, mas a obra deverá se transformar em realidade, em breve.
Concluído em 2019
A concessionária HKND Group terá direitos exclusivos para projetar e construir o canal, enquanto o governo da Nicarágua terá direito a uma fatia minoritária de lucros futuros com sua operação. O canal nicaraguense poderia estar parcialmente construído em 2019, ano em que teria capacidade para captar 416 milhões de toneladas métricas, representando 3,9% da carga marítima mundial.
Internamente, a obra não é uma unanimidade. Longe disso. Partidos políticos de oposição, organizações não governamentais, ativistas defensores dos direitos humanos, empresários, advogados, ecologistas e outros personagens importantes já contestaram o canal. Pelo menos 32 recursos judiciais foram impetrados, mas a Corte Suprema de Justiça os rejeitou. A obra tem que sair, de acordo com a visão das autoridades nicaraguenses.
De acordo com especialistas, o canal é estratégico para o Brasil e seus planos de expansão de sua produção petrolífera, no sentido de tornar-se um dos maiores produtores mundiais. O canal, construído por chineses, seria usado pela China para importar petróleo do pré-sal, consolidando, numa gigantesca operação bilateral, o Brasil, como uma das cinco maiores potências econômicas do planeta. O canal, portanto, viabilizaria economicamente essas operações.
China-Brasil
Tal relação comercial China-Brasil seria vista como ameaça aos interesses econômicos dos EUA, que não vê com bons olhos o processo de expansão da econômica brasileira, que passaria ser cada vez mais apoiada pela China. O país asiático, por sua vez, estaria interessado na formação de um bloco econômico hegemônico, envolvendo as nações dos Brics, para se contrapor ao bloco norte-americano e à Comunidade Comum Europeia.
A invisibilidade da obra, para os veículos de comunicação brasileiros, não teria relação com os interesses contrariados dos Estados Unidos quanto ao canal e ao comércio que será impulsionado através dele? Qualquer resposta neste sentido, neste momento, não ultrapassaria o terreno da especulação. Todavia, é de se estranhar a aparente operação de “abafa”, em torno da obra na América Central.
Por enquanto, o Canal da Nicarágua é visto, para a maioria dos cidadãos do país, como a realização do velho sonho de rivalizar com o Panamá, no mapa das rotas mundiais de comércio. Desde a Guerra Civil de 1980, a Nicarágua não era alvo de tantas atenções mundiais. Felizmente, os protagonistas não estão mais entre rebeldes sandinistas armados ou indígenas em pé de guerra. Hoje, a Frente Sandinista, de Daniel Ortega, é quem autoriza a concessão bilionária. Novos tempos.
Negócio da China
Parece mesmo ser um negócio da China, literalmente. Segundo o norte-americano The Wall Street Journal, no 11º ano de operacionalização do canal, a Nicarágua terá 10% da HKND Group, que o executará e explorará. Em 100 anos, o controle nicaraguense chegará a 100%. “Não queremos que isto se torne uma piada internacional, e se transforme num exemplo de investimento chinês falho”, disse o megaempresário chinês, Wang Jin, dono do canal. Há quem duvide?

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